Diário de Bordo I Dia 7 I Como okupar um rio


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Oeiras também é terra de hortas okupadas

Os dias anteriores serviram-nos para seguir o curso do Jamor, sempre dentro do concelho de Sintra. Neste dia passamos para o outro lado do IC19 e chegamos a Oeiras.

 

O rio Jamor nasce na Serra da Carregueira, concelho de Sintra, e desagua na Cruz Quebrada, concelho de Oeiras. Percorre portanto dois concelhos, ambos da Grande Lisboa, fazendo do Jamor um rio urbano, pois nasce, corre e desagua numa área metropolitana, a de Lisboa. Esta é também uma das regiões mais povoadas de Portugal.

Dona Maria, Brejo, Belas, Pendão e finalmente Queluz. Este é o percurso que o Jamor faz, e que nós visitámos, no concelho de Sintra. Neste dia entrámos no concelho de Oeiras, em plena Queluz de Baixo. Aqui, a margem direita do rio estreita-se e o terreno eleva-se abruptamente. Há apenas espaço para umas casinhas de pedra construídas em socalcos, provavelmente já bem antigas. Ladeiam-nas barracões e pequenas hortas, tudo povoado por muitos cães ladrantes.

 

 

Na margem esquerda, pelo contrário, há espaço para muitas hortas okupadas, e foi numa delas que conhecemos o Sr. José Amaral. Veio de Viseu para Lisboa há muitos anos, infância passada à beira do rio Dão. Quando o encontrámos tinha entre as mãos uma máquina barulhenta com que estava a trabalhar a terra, mas assim que nos viu prontamente a desligou e veio falar connosco. Contou-nos que está ali há já 40 anos, okupando terras que sabe que são do Estado, mas não tem medo de ser expulso. A Câmara de Oeiras raramente se faz presente para aqueles lados; o Sr. José lembra-se, por exemplo, de ter visto aquelas margens serem limpas apenas duas vezes, nos últimos 40 anos. No entanto, que técnicos da Câmara haviam estado ali há bem pouco tempo, a informar acerca do Eixo Verde e Azul, um plano intermunicipal que envolve as câmaras de Sintra, Amadora e Oeiras, e que “visa requalificar a bacia hidrográfica do Jamor”, entre outros, através da criação de percursos pedonais e cicláveis, desde a Carregueira até à Cruz Quebrada.  Até que esse eixo seja construído (parece que já está planeado há um bom ror de anos) por ali ficará, a tratar das algumas dezenas de espécies diferentes de fruta e legumes, entre herbáceas, arbustos e árvores, mais ou menos exóticos, que ali cultiva. O que planta e consegue colher é para consumo próprio, dele e da família, que de vez em quando também vem ajudar no trabalho. Os vizinhos também ficam a ganhar. Foi ele que fez o passadiço de acesso da margem de Queluz de Baixo (onde vive), para a margem onde estão as hortas. Passa ali os dias inteiros e dá-se muito bem com os vizinhos okupas, que são naquela zona ao todo 8. Trocam ferramentas e produtos hortícolas.

 

 

Mesmo à entrada de Carnaxide, antes de se chegar ao Santuário da Rocha, na margem esquerda do Jamor, encontra-se a Quinta da Gandarela. O Sr. Jacinto e a Sra. Fátima moram ali há mais de 50 anos, ele vindo do Alentejo, ela de Oleiros. Usam uma pequena parte do terreno da antiga quinta, mesmo junto ao Jamor, para cultivar. Aqui a água do rio é muito limpa, podem ver-se peixes a nadar e tudo. Praticam agricultura biológica, não querem usar químicos. “Quando a terra não dá, paciência, não dá”. Mas dá, e de que maneira. O que produzem, entre fruta e legumes, chega para eles, e ainda para dar à família, vizinhos e amigos. Não se lembram da última vez que compraram vegetais no supermercado. Na sua opinião, a junta de freguesia e a câmara estão de bem com as hortas. “As pessoas hoje em dia são mais conscientes” e por isso conseguem ver a sua importância para a sociedade. Também já ouviram falar no tal Eixo Verde e Azul, mas, como os terrenos que estão a ocupar são privados, sabem que pelo menos aquele troço levará o seu tempo a concretizar. Até lá, a horta é para manter…

 

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