Diário de Bordo I Dia 6 I Como okupar um rio


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Quando no meio da cidade irrompe o campo

As hortas em Queluz são impressionantes pelo contraste que criam com os prédios em redor. Parece mesmo o campo a invadir a cidade, finalmente o triunfo da natureza.

 

Do passeio que está por cima da enorme planície que acompanha o Jamor, junto à estação de comboios de Queluz-Belas, veêm-se sempre muitas pessoas a trabalhar a terra. Nesse dia metemos conversa à distância com dois senhores, que, lá em baixo, regavam com uma enorme mangueira o que pareciam ser couves bebés. Queríamos saber como descer. Gritaram-nos que teríamos de ir até ao final da Avenida Miguel Bombarda e entrar por uma abertura entre dois prédios.

Encontrámos a tal abertura e caminhámos por um carreiro, ao longo da margem esquerda do Jamor; vimos como o rio ali está tão limpo, com patinhos e algumas plantas subaquáticas; pudemos também ver de perto as dezenas de hortas existentes em ambos os lados do rio, a serem tratadas por um número não menor de hortelãos okupas.

 

 

Voltadas à planície perto da estação, agora na parte de baixo, encontramos o Sr. José, hortelão dos seus 40-50 anos. Com a testa a escorrer de suor, estava a cavar a terra para plantar couves novas para o Natal. O Sr. José é do norte do país e trabalha este terreno há cerca de um ano. “Mas o Sr. Candeias (e aponta para o tal senhor da mangueira gigante a quem havíamos interpelado pouco antes) já está cá há mais de 30 anos”. Explica-nos que o terreno não é deles, que pertence a um outro dono. Há uma pessoa que gere a ocupação e as pessoas pagam qualquer coisa para utilizar aquela terra. Também nos apercebemos que a ocupação não é totalmente pacífica, pelo contrário, é bastante renhida; para se poder estar ali é preciso não só esperar que algum espaço vague (o que pelos vistos acontece muito raramente), mas tem de se estar mesmo dentro do meio, conhecer as pessoas certas e sabe-se lá o que mais. Contou-nos que estão a ser criadas hortas comunitárias não ali muito longe, no Monte Abraão, mas que ele não quer sair dali, de ao pé do rio. Sem água não há agricultura possível, e ali ela não falta: para além do Jamor, há um poço e ainda uma mina de água – que chega ali correndo por baixo dos prédios da Miguel Bombarda, e que se junta ao Jamor mais em baixo, já na zona do palácio de Queluz. Para ele, a agricultura tornou-se num verdadeiro vício, e nisto faz um sorriso sincero.

 

 

O Luís Pereira é um professor de matemática e militar da Marinha, reformado okupa. A Luísa Gomes, uma dona de casa okupa. Ambos partilham uma pequena porção de terra okupada na margem direita do rio Jamor, em Queluz. Já estão aqui ali há três anos. Foi ela que “herdou” o terreno, de um senhor de idade, seu vizinho de prédio e igualmente okupa, mas que já não podia mais tratar da terra. Não sendo um terreno muito grande, era mesmo assim demasiado trabalho para ela. E assim desafiou o Luís, a quem costuma limpar a casa, para a ajudar nas atividades hortícolas. Ela já sabia de agricultura, pois trabalhou no campo logo desde muito jovem, a ajudar os pais. Ele nunca tinha pegado num ancinho, mas agora até já sabe que juntar determinado tipo de plantações ajuda no combate às pragas e no crescimento das plantas. Praticam agricultura biológica, não usam remédios. Preferem assim, mantêm o que vão comer livre de químicos, mas também o rio. A sua principal motivação para ali estar é sair de casa, do meio dos prédios, “respirar o ar que é muito parecido com o do campo” – estar perto da terra, ver as coisas a crescer, ter a satisfação de as colher. As relações com os vizinhos okupas também são provavelmente uma boa motivação: para além de partilharem ferramentas e conhecimentos, ainda fazem troca direta do que produzem, num verdadeiro espírito comunitário.

 

 

Este dia acabou observando a última porção de rio Jamor em Queluz: a que passa pelo Parque Urbano Felício Loureiro. Aqui já não há hortas okupas, mas o rio continua a servir a comunidade, permite que esta utilize as suas margens para jogar, correr, ler um livro ou descansar. Comida para o espírito, portanto.

 

 

 

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