A Academia Cidadã numa Berlim em transição


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Em 2014, a Pakhuis de Zwijger (organização cultural da cidade de Amesterdão) teve a ideia das Metropolitan Field Trips. As cidades estão constantemente em mudança, surgem iniciativas de pequena escala que tentam dar resposta às mais diversas questões sobre como sermos “donos da cidade” e como participarmos na sua evolução. Durante as Field Trips, nas maiores cidades europeias, os participantes aprendem sobre as diversas abordagens de iniciativas-base e sobre a relação entre emergentes city makers, órgãos de planeamento, governo local e outras instituições. As Field Trips têm, por isso, como objetivo um melhor entendimento de todo o processo de transição e servem como uma oportunidade de troca de conhecimentos entre os parceiros na Europa.

O programa começou às 16h do dia 8, com o ponto de encontro para as boas-vindas em Holzmarkt. O Holzmarkt está localizado numa antiga área abandonada à beira-rio. Esteve destinado a ser vendido como parte do projeto de reabilitação do Media Spree, mas agora tornou-se num espaço criativo, incluindo um clube noturno, restaurante, estúdios de artistas, oficinas para startups e cientistas, workshops e casas de habitação, tudo acessível ao público sob a premissa Spree riverfront for everybody. Isto porque a área em torno do antigo porto de leste foi sujeita um grande processo de reestruturação que começou após a reunificação. Era suposto ser um ponto central de empresas de média e culturais. Já alberga uma larga arena para eventos de música e desportivos, empresas de moda e estilos de vida, mas o projeto tem sido alvo de protesto por negligenciar os interesses dos cidadãos.

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Após a apresentação do programa da visita e das apresentações dos participantes, decorreu o jantar em Kunstlerhaus Bethanien’s 3 Schwestern. Trata-se de um edifício que esteve em risco de ser demolido após ter servido como hospital no século XIX. Foi transformado num espaço para instituições sociais, exibições…, graças à iniciativa dos cidadãos. Atualmente, é essencialmente um local de cultura do distrito de Kreuzberg.

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O dia seguinte teve começo às 10h no Radialsystem V, uma antiga estação de bombagem de águas residuais entre outras doze existentes no século XIX, perto do rio. Inutilizada em 1999, transformou-se num centro de artes, performances e dança. A ideia principal é combinar a tradição com a inovação, música clássica com dança contemporânea, artes visuais, cultura e empreendedorismo. É hoje um local bastante reputado para espetáculos de dança e música.

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Quarenta e cinco minutos depois, os participantes foram dar uma volta de barco e discutir sobre o Media Spree, sobretudo a reestruturação de que está a ser alvo a margem do rio.

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O almoço decorreu na DAZ Cantina, o Centro Alemão para a Arquitetura.

À tarde, percorreu-se, de bicicleta, uma parte de Kreuzberg, com paragem no Prinzessingarten (princess’s garden) – projeto de jardinagem urbano no centro do distrito que serve como lugar para educação, centro da comunidade e espaço de lazer. A iniciativa dos cidadãos traduziu-se numa limpeza de um local que era um acumulado de resíduos e tornaram-no no jardim onde tudo é móvel – plantas, colónias de abelhas, cozinha e café.

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O final da tarde foi passado no Parlamento de Berlim (House of Representatives). Foi dada a conhecer a história do monumento e Christian Goiny, membro do Parlamento do partido CDU, falou-nos um pouco de tudo o que está por detrás dos projetos de reestruturação e planeamento urbano em Berlim.

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O dia terminou com o jantar no “Das Hotel”.

No dia 10, começámos com uma visita e brunch num mercado histórico, o Markthalle Neun, com 120 anos de existência. Este mercado é um bom exemplo de uma conversão urbana e de como é possível afastarmo-nos das grandes cadeias de supermercado, virando-nos para os vendedores e produtores regionais. O espaço oferece um mercado semanal tradicional, mercado de comida de rua, e uma plataforma para fortalecer a indústria da comida regional, bem como para discutir a agricultura sustentável e o planeamento da cidade.

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Do meio-dia até ao final da tarde decorreu a conferência Players of Change – Let the city be our playground. O objetivo era explorar o potencial do desenvolvimento urbano em Berlim e motivar o empoderamento de jovens city makers e projetos urbanos inovadores através do trabalho em rede, experiência profissional e inspiração. Através do mote “Let the city be our playground” foram convidados visionários urbanos de Berlim para apresentar e discutir as suas ideias com especialistas e o público, encontrar parceiros e apoiantes.

Cada projeto tinha 3 minutos para ser apresentado aos participantes, incluindo as questões que queriam colocar. Depois, reuniram-se em pequenos grupos para trabalhar em conjunto em blocos de 25 minutos. Desta forma, cada projeto podia ser discutido por diferentes grupos de participantes, cada um com experiências e perspetivas diferentes. Para tal, cada grupo tinha um moderador e material para fazer o registo da atividade. Os resultados foram apresentados aos participantes e revistos num painel de discussão no final da conferência.

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O último dia consistiu numa visita ao “Tempelhofer Feld and Allmendekontor”. Trata-se de um antigo aeroporto no coração de Berlim que ficou famoso pelo seu papel vital durante o bloqueio de Berlim e o transporte aéreo desta cidade, onde serviu como ponto de destino de bombardeiros. Deixou de ser usado como aeroporto em 2008 e foi sujeito a planos de regeneração que foram referendados pelo público. Agora é usado para recreação e dispõe de uma zona de proteção natural e de uma vasta área destinada à jardinagem urbana.

Foi visível o processo de gentrificação com novos cafés, bares e lojas na área envolvente.

O que se pode retirar desta experiência é a consciencialização de que enquanto cidadãos nós podemos mudar o que nos rodeia. Nós não temos de aceitar as coisas como são. As cidades influenciam-se umas às outras, mas os cidadãos é que são a cidade. Não devemos aceitar o que não pode ser mudado, mas devemos mudar o que não deve ser aceite. Precisamos de burocratas criativos, que queiram mudar o que não está certo. Porém, não nos devemos esquecer que nós todos somos atores da mudança, nós fazemos a cidade. Para tal, nos projetos que queiramos levar adiante devemos ser amigos da cidade, devemos explicar essa amizade ao procurarmos o apoio de outras pessoas e falar mais da comunidade ao invés de nos focarmos no nosso projeto. Além disso, é essencial experimentar: devemos pôr o projeto em prática, pois se apenas nos limitarmos a falar dele, então o nosso projeto não passará disso mesmo…um projeto.

Rafaela Fonseca

Projecto: Nova Europa – Cidades em Transição

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