{"id":4438,"date":"2021-01-15T21:30:09","date_gmt":"2021-01-15T21:30:09","guid":{"rendered":"https:\/\/academiacidada.org\/?p=4438"},"modified":"2021-01-15T21:30:47","modified_gmt":"2021-01-15T21:30:47","slug":"nos-centros-historicos-entram-os-ricos-e-saem-os-mais-pobres-e-vulneraveis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/academiacidada.org\/en\/nos-centros-historicos-entram-os-ricos-e-saem-os-mais-pobres-e-vulneraveis\/","title":{"rendered":"Tornado: Nos centros hist\u00f3ricos: \u00abentram os ricos e saem os mais pobres e vulner\u00e1veis\u00bb"},"content":{"rendered":"\n<p>Original: <a href=\"https:\/\/www.jornaltornado.pt\/nos-centros-historicos-entram-os-ricos-e-saem-os-mais-pobres-e-vulneraveis\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/www.jornaltornado.pt\/nos-centros-historicos-entram-os-ricos-e-saem-os-mais-pobres-e-vulneraveis\/<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><em>A gentrifica\u00e7\u00e3o, \u201cuma palavra suja\u201d que agrava o desalojamento e a segrega\u00e7\u00e3o residencial, \u00e9 retratada ao Tornado pelo ge\u00f3grafo Lu\u00eds Mendes, investigador do Instituto de Geografia e Ordenamento do Territ\u00f3rio (IGOT) da Universidade de Lisboa. \u201cA habita\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 hoje vista como um direito do Estado Social mas como mero activo financeiro\u201d, diz. O acad\u00e9mico e coordenador do movimento \u201cMorar em Lisboa\u201d fala da viragem neoliberal nas pol\u00edticas urbanas e recorda os \u00faltimos dados do Banco Nacional de Arrendamento: \u201cem m\u00e9dia, s\u00e3o despejadas por dia cerca de 5,5 fam\u00edlias, em todo o pa\u00eds\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li>13 Abril, 2018<\/li><li><a href=\"https:\/\/www.jornaltornado.pt\/author\/isabelguerreiro\/\">Isabel Guerreiro<\/a><\/li><li>Posted in <a href=\"https:\/\/www.jornaltornado.pt\/categoria\/politica\/discurso-directo\/\">Discurso Direct<\/a>o<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><strong>Jornal Tornado: Em Lisboa e Porto, as rendas podem triplicar nos pr\u00f3ximos dois anos. Na capital, desde 2013, a freguesia de Santa Maria Maior, por exemplo, perdeu quase dois mil habitantes. H\u00e1 ordens de despejo que afectam v\u00e1rias fam\u00edlias residentes nos bairros populares sem possibilidade de suportar o aumento das rendas. Como v\u00ea esta realidade que dita a expuls\u00e3o dos mais desfavorecidos dos centros hist\u00f3ricos?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Lu\u00eds<\/strong><strong>&nbsp;Mendes: <\/strong>Lisboa est\u00e1 a viver um pico de projec\u00e7\u00e3o internacional enquanto destino tur\u00edstico, ao mesmo tempo que o seu mercado de habita\u00e7\u00e3o adquire formatos de activo financeiro e atrai din\u00e2micas globais de procura e de investimento estrangeiro. Este processo foi alavancado por programas governamentais do anterior governo durante o per\u00edodo da austeridade e pela viragem neoliberal na pol\u00edtica urbana, esta \u00faltima desde j\u00e1 o in\u00edcio do s\u00e9culo XXI. Estes factores fomentaram a atrac\u00e7\u00e3o de uma procura global e transnacional, colocaram o mercado de habita\u00e7\u00e3o lisboeta no mapa-mundo e favoreceram a financeiriza\u00e7\u00e3o do imobili\u00e1rio e a reestrutura\u00e7\u00e3o urbana na capital portuguesa. A habita\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 hoje vista como um direito do Estado Social mas como mero activo financeiro que serve a reprodu\u00e7\u00e3o de capital atrav\u00e9s da especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria e produ\u00e7\u00e3o de mais-valias.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O processo de gentrifica\u00e7\u00e3o em curso\u2026<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Sim, assiste-se tamb\u00e9m a uma gentrifica\u00e7\u00e3o tur\u00edstica, mediante a transforma\u00e7\u00e3o dos bairros populares e hist\u00f3ricos da cidade centro em locais de consumo e turismo, pela expans\u00e3o da fun\u00e7\u00e3o de recrea\u00e7\u00e3o, lazer ou alojamento tur\u00edstico\/arrendamento de curta dura\u00e7\u00e3o que come\u00e7a a substituir gradualmente as fun\u00e7\u00f5es tradicionais da habita\u00e7\u00e3o para uso permanente, arrendamento a longo prazo e o com\u00e9rcio local tradicional de proximidade, agravando tend\u00eancias de desalojamento e segrega\u00e7\u00e3o residencial.<\/p>\n\n\n\n<p>Os bairros s\u00e3o esvaziados da sua popula\u00e7\u00e3o original ou impede-se a popula\u00e7\u00e3o de baixo estatuto socioecon\u00f3mico de aceder \u00e0 habita\u00e7\u00e3o nessas \u00e1reas, colocando em risco a resili\u00eancia do centro hist\u00f3rico. Contudo, o turismo e a expans\u00e3o do alojamento local parecem-me agora factores secund\u00e1rios e conjunturais face a factores mais estruturais como as for\u00e7as globais das geografias do investimento de capital.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p><strong>A habita\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 hoje vista como um direito do Estado Social mas como mero activo financeiro que serve a reprodu\u00e7\u00e3o de capital atrav\u00e9s da especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria e produ\u00e7\u00e3o de mais-valias\u201d<\/strong><\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Lu\u00eds Mendes<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.jornaltornado.pt\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Geografo-Luis-Mendes-investigador-do-Instituto-de-Geografia-e-Ordenamento-do-Territorio-da-Universidade-de-Lisboa.jpg?w=1170&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-68258\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>Explique-nos como surgiu o termo gentrifica\u00e7\u00e3o.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Gentrifica\u00e7\u00e3o que \u00e9 uma <em>buzzword<\/em> recente em Portugal, na verdade, \u00e9 uma palavra suja e tem j\u00e1 meio s\u00e9culo noutras cidades do mundo desenvolvido como Londres, Paris ou Nova Iorque e designa um processo de atrac\u00e7\u00e3o de capital privado e novas popula\u00e7\u00f5es endinheiradas para bairros tradicionais dos centros hist\u00f3ricos, durante muito tempo alvo de desinvestimento e de avan\u00e7ado estado de degrada\u00e7\u00e3o e conserva\u00e7\u00e3o. Esse investimento requalifica os bairros produzindo uma regenera\u00e7\u00e3o urbana a n\u00edvel econ\u00f3mico, cultural e ambiental, o que acaba por encarecer os pre\u00e7os fundi\u00e1rios e imobili\u00e1rios. Perante esta subida dos pre\u00e7os de arrendamento e para habita\u00e7\u00e3o de casa pr\u00f3pria, as classes populares, que residem nestes bairros inicialmente, v\u00eaem-se incapazes de suportar estes custos e s\u00e3o obrigadas a sair. Falando de uma forma simplificada e gen\u00e9rica: entram os ricos e saem os mais pobres e vulner\u00e1veis destes bairros populares.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Quando come\u00e7ou o fen\u00f3meno em Portugal?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignright\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.jornaltornado.pt\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/electricos.jpg?w=1170&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-68265\"\/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>A gentrifica\u00e7\u00e3o \u00e9 um dos processos mais fortes de mudan\u00e7a urbana no mundo actual e tem-se agudizado nos anos recentes, sobretudo em Lisboa e Porto. Em Portugal, come\u00e7ou nos anos 80 por ser um processo local e relativamente marginal que afectava apenas alguns fogos ou im\u00f3veis (se tanto) isolados e dispersos no centro hist\u00f3rico. Geograficamente, era um processo fragmentado. Os novos moradores apreciavam o patrim\u00f3nio, a arquitectura, o ambiente cosmopolita e diverso dos bairros hist\u00f3ricos, sendo estes os principais factores para a tomada de decis\u00e3o de resid\u00eancia no centro da cidade, a par, obviamente, da excelente localiza\u00e7\u00e3o e da proximidade de servi\u00e7os e oferta cultural. N\u00e3o existia desalojamento com os contornos a que hoje se assiste, pois muitos dos im\u00f3veis renovados j\u00e1 se encontravam vazios ou em avan\u00e7ado estado de degrada\u00e7\u00e3o, e o congelamento das rendas n\u00e3o permitia a expuls\u00e3o dos inquilinos. Falava-se de gentrifica\u00e7\u00e3o marginal. Designei-a de \u201cgentrifica\u00e7\u00e3o embrion\u00e1ria\u201d para o caso portugu\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Entretanto, alastrou e agigantou-se.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Actualmente, e a partir do in\u00edcio do s\u00e9culo XXI, o processo de gentrifica\u00e7\u00e3o em Lisboa expandiu as suas fronteiras. A escala e extens\u00e3o, as modalidades de oferta, os agentes e protagonistas do processo, em tudo mudaram. A gentrifica\u00e7\u00e3o tornou-se madura e afigura-se com contornos mais agressivos, o que implica desalojamento dos mais pobres e uma perspectiva da habita\u00e7\u00e3o esvaziada da no\u00e7\u00e3o de direito, para ganhar o estatuto de mero activo financeiro para atrac\u00e7\u00e3o de investimento estrangeiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Tendo-se sobretudo a cidade de Lisboa tornado num destino de procura internacional do imobili\u00e1rio, a subida dos pre\u00e7os acompanha os rendimentos m\u00e9dios dessa procura que s\u00e3o muito elevados comparativamente aos nacionais e excluem o portugu\u00eas m\u00e9dio da possibilidade de aquisi\u00e7\u00e3o de habita\u00e7\u00e3o em Lisboa. Portanto, a quest\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 apenas a do desalojamento directo, que implica expuls\u00e3o das pessoas das suas casas e bairros, negando-lhes o direito \u00e0 habita\u00e7\u00e3o e ao lugar, mas \u00e9 tamb\u00e9m uma quest\u00e3o de desalojamento indirecto, porque se est\u00e1 a impedir ou a negar o acesso dos grupos mais vulner\u00e1veis a esse lugar, ao mesmo tempo que se abre o caminho para permitir que os grupos mais favorecidos o possam fazer.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.jornaltornado.pt\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Baixa-Lisboa-Vitsa-aerea.jpg?w=1170&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-68262\"\/><\/figure>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p><strong>A gentrifica\u00e7\u00e3o tornou-se madura e afigura-se com contornos mais agressivos, o que implica desalojamento dos mais pobres e uma perspectiva da habita\u00e7\u00e3o esvaziada da no\u00e7\u00e3o de direito\u201d<\/strong><\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Lu\u00eds Mendes<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p><strong>As 1100 casas anunciadas pela CML a pre\u00e7os acess\u00edveis s\u00e3o uma medida importante, mas n\u00e3o trava os despejos que todos os dias ocorrem\u201d<\/strong><\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Lu\u00eds Mendes<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A lei do arrendamento urbano \u00e9 uma das causas directa desse processo?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Comumente tem-se considerado que a gentrifica\u00e7\u00e3o que se verifica no centro hist\u00f3rico da cidade de Lisboa resulta directamente da expans\u00e3o do Alojamento Local e que reside na conjuga\u00e7\u00e3o de uma s\u00e9rie de elementos decisivos. Contudo, em boa verdade, esta mudan\u00e7a revela causas mais profundas e estruturais do que as que t\u00eam sido divulgadas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Tais como?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Come\u00e7ou com uma viragem neoliberal nas pol\u00edticas urbanas desde 2004 (cria\u00e7\u00e3o das sociedades de reabilita\u00e7\u00e3o urbana), com a aprova\u00e7\u00e3o de uma s\u00e9rie de pacotes de leis que foram surgindo sucessivamente defendendo uma vis\u00e3o pr\u00f3-mercado no que respeita \u00e0 habita\u00e7\u00e3o, favorecendo a iniciativa privada, as parcerias p\u00fablicas-privadas e a competitividade no sector. Esta viragem neoliberal culminou com a aprova\u00e7\u00e3o da Nova Lei do Arrendamento Urbano em 2012, em conjunto com a simplifica\u00e7\u00e3o da Lei do Alojamento Local em 2014, com os pacotes para atrac\u00e7\u00e3o de investimento estrangeiro, tais como o regime fiscal muito favor\u00e1vel para os Residentes N\u00e3o Habituais (j\u00e1 desde 2009) e para os Fundos de Investimento Imobili\u00e1rio, bem como com o programa dos Golden Visa ou Autoriza\u00e7\u00e3o de Resid\u00eancia para Actividade de Investimento, e ainda com o regime excepcional e tempor\u00e1rio da reabilita\u00e7\u00e3o urbana de 2014, no sentido da agiliza\u00e7\u00e3o e dinamiza\u00e7\u00e3o, flexibilizando e simplificando os procedimentos de cria\u00e7\u00e3o de \u00e1reas de reabilita\u00e7\u00e3o urbana e de controlo pr\u00e9vio das opera\u00e7\u00f5es urban\u00edsticas. Acrescente-se ainda a liberaliza\u00e7\u00e3o dos usos do solo operada pela C\u00e2mara Municipal de Lisboa em 2012 durante a revis\u00e3o Plano Director Municipal de Lisboa.<\/p>\n\n\n\n<p>Todo este quadro criou um contexto fiscal e legal que facilitou imenso a financeiriza\u00e7\u00e3o do imobili\u00e1rio, forma acabada de acumula\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o do capital no ambiente constru\u00eddo; bem como os despejos, tendo agravado o desalojamento e a segrega\u00e7\u00e3o residencial.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o h\u00e1 aqui nenhuma teoria da conspira\u00e7\u00e3o! O governo anterior deu um impulso forte \u00e0 gentrifica\u00e7\u00e3o, mesmo que de forma, a meu ver, n\u00e3o intencional, pois, em pleno per\u00edodo de crise econ\u00f3mica e de forte austeridade, e na necessidade urgente de atrac\u00e7\u00e3o de investimento internacional, promoveu leis que s\u00e3o respons\u00e1veis pelo avan\u00e7o do processo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Especificamente, o que desencadeou o Novo Regime de Arrendamento, apelidado por alguns inquilinos, por \u201clei dos despejos\u201d?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O Novo Regime de Arrendamento, promulgado em 2012, imposto pela Troika e subordinado aos interesses da propriedade, veio liberalizar ainda mais o arrendamento, aumentar o poder dos senhorios, actualizar excessivamente as rendas e facilitar os despejos, levando \u00e0 expuls\u00e3o de muitos habitantes e ao encerramento de actividades econ\u00f3micas, sociais e culturais, como o com\u00e9rcio tradicional, associa\u00e7\u00f5es e colectividades.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O direito \u00e0 cidade<\/h2>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignleft\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.jornaltornado.pt\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Baixa-Lisboa.jpg?w=1170&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-68259\"\/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p><strong>Como classifica as actuais pol\u00edticas de gest\u00e3o da capital e dos seus espa\u00e7os urbanos no momento em que o turismo \u00e9 a \u201cgalinha dos ovos de ouro\u201d?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Quer a C\u00e2mara Municipal de Lisboa (CML), quer o actual Governo Central, que durante muito tempo pareceram dormentes, t\u00eam-se, finalmente, demonstrado atentos ao que se est\u00e1 a passar no centro hist\u00f3rico de Lisboa, at\u00e9 porque diversos movimentos locais, como as comiss\u00f5es de moradores, associa\u00e7\u00f5es de bairro, organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o governamentais, meio universit\u00e1rio, assim como a sociedade civil e a opini\u00e3o p\u00fablica, com o apoio da comunica\u00e7\u00e3o social, se t\u00eam manifestado, de forma a que se comecem a tomar medidas que mitiguem a intensa turistifica\u00e7\u00e3o e os despejos que se registam.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Mas os despejos continuam a aumentar.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>As v\u00e1rias medidas at\u00e9 agora tomadas s\u00e3o uma condi\u00e7\u00e3o importante para manter uma estrutura residencial e comercial sustent\u00e1vel e resiliente nos bairros hist\u00f3ricos, mas n\u00e3o suficientes se n\u00e3o forem articuladas estruturalmente com uma pol\u00edtica de habita\u00e7\u00e3o justa que garanta o direito \u00e0 cidade. S\u00f3 por via da fixa\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o nos bairros, valorizando a fun\u00e7\u00e3o de resid\u00eancia permanente e n\u00e3o a de alojamento tur\u00edstico ou <em>short-rental<\/em> e apenas apartamentos de luxo, estaremos a garantir uma procura constante que mantenha vivo o com\u00e9rcio local e a pr\u00f3pria vida social nestes bairros. Os bairros devem ser espa\u00e7os de mistura social e funcional! As 1100 casas anunciadas pela CML a pre\u00e7os acess\u00edveis s\u00e3o uma medida importante, mas n\u00e3o trava os despejos que todos os dias ocorrem.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignright\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.jornaltornado.pt\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/O-Homem-na-cidade.jpg?w=1170&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-68263\"\/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p><strong>O que prop\u00f5e como medidas urgentes?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A CML devia agilizar o desbloqueio das casas vazias, com penaliza\u00e7\u00e3o fiscal dos propriet\u00e1rios que as mantenham desabitadas e devolutas e penalizar o investimento especulativo, criando novos impostos de propriedade que agravem puni\u00e7\u00f5es sobre os espa\u00e7os desocupados.<\/p>\n\n\n\n<p>Existem v\u00e1rias medidas que devem ser adoptadas neste momento para mitigar os impactos de uma gentrifica\u00e7\u00e3o pelo turismo e que passam por adoptar uma pol\u00edtica de cidade que se fa\u00e7a de uma reabilita\u00e7\u00e3o urbana para e pelas pessoas, ao mesmo tempo que se combate a especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria e promove o mercado social de arrendamento; ao inv\u00e9s do investimento em edif\u00edcios emblem\u00e1ticos de grande projec\u00e7\u00e3o internacional ou de uma pol\u00edtica de regenera\u00e7\u00e3o urbana \u00fanica e exclusivamente cativa das din\u00e2micas predat\u00f3rias do grande capital imobili\u00e1rio, ao abrigo da cont\u00ednua financeiriza\u00e7\u00e3o do mercado de habita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O munic\u00edpio, que disp\u00f5e de um vasto patrim\u00f3nio imobili\u00e1rio em toda a cidade, deve requalific\u00e1-lo e mobiliz\u00e1-lo para uso afecto de bolsas de arrendamento a custos controlados, regulando o mercado imobili\u00e1rio, limitando os custos do arrendamento residencial tradicional, garantindo uma oferta habitacional a pre\u00e7os acess\u00edveis, sobretudo para os mais vulner\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo isto na linha do projecto j\u00e1 existente da cria\u00e7\u00e3o de bolsas territoriais \u2013 conjuntos de fogos municipais todos localizados numa mesma \u00e1rea ou bairro, aos quais se podem candidatar os interessados em residir nessa zona da cidade, no \u00e2mbito do Regulamento do Regime de Acesso \u00e0 Habita\u00e7\u00e3o Municipal, mas privilegiando o realojamento local dos moradores expulsos ou alvo de desalojamento, todavia, oriundos do bairro em quest\u00e3o. Assim, podia-se intensificar a reabilita\u00e7\u00e3o urbana de propriedades\/edif\u00edcios de propriedade municipal ou estatal para uso como resid\u00eancia tempor\u00e1ria para popula\u00e7\u00f5es vulner\u00e1veis ou entretanto desalojadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Se a expropria\u00e7\u00e3o \u00e9 ainda uma quest\u00e3o tabu em Lisboa, o exerc\u00edcio do direito de prefer\u00eancia j\u00e1 n\u00e3o parece ser. Deste modo, devia-se averiguar a possibilidade de exerc\u00edcio de \u201cdireito de prefer\u00eancia\u201d da CML que, nos termos da lei, tem prefer\u00eancia na aquisi\u00e7\u00e3o de alguns im\u00f3veis.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A \u201cdisneyfica\u00e7\u00e3o\u201d dos bairros hist\u00f3ricos<\/h2>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p><strong>De acordo com os \u00faltimos dados do Banco Nacional de Arrendamento, os despejos duplicaram desde 2013 e, em m\u00e9dia, s\u00e3o despejadas por dia cerca de 5,5 fam\u00edlias, em todo o pa\u00eds\u201d<\/strong><\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Lu\u00eds Mendes<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A turismofobia alastra por v\u00e1rias cidades europeias. As manifesta\u00e7\u00f5es anti-turistas correm o risco de se intensificar em Lisboa?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Percorrendo as ruas de Lisboa deparamo-nos pontualmente com alguns <em>slogans<\/em> ou frases feitas mas repara-se que as mensagens dirigem-se sobretudo aos grandes grupos e agentes com responsabilidade na gentrifica\u00e7\u00e3o e turistifica\u00e7\u00e3o da cidade, como as ag\u00eancias imobili\u00e1rias, plataformas de alojamento tur\u00edstico como o \u201cairbnb\u201d, ou at\u00e9 a autarquia de Lisboa, entre outros.<\/p>\n\n\n\n<p>Considero que n\u00e3o existe turismofobia nem risco de tal acontecer em Lisboa ou Portugal. As frases e express\u00f5es grafitadas nas paredes de Lisboa revelam na verdade algum tipo de xenofobia dirigida ao turista, mas dizem respeito sobretudo aos impactos que o excesso tur\u00edstico provoca na vida das comunidades dos bairros hist\u00f3ricos e n\u00e3o apresentam nenhum princ\u00edpio de causar terror ou amedrontar, mas sensibilizar a opini\u00e3o p\u00fablica e a sociedade civil. S\u00e3o sintom\u00e1ticas de algum mal-estar social que se vive, porque, na opini\u00e3o de activistas e habitantes destes bairros, o fen\u00f3meno parece estar a atingir limites que comprometem a carga tur\u00edstica destes espa\u00e7os e a sustentabilidade da qualidade de vida urbana.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.jornaltornado.pt\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Arco-Rua-Augusta-Lisboa.jpg?w=1170&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-68260\"\/><\/figure>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p><strong>A descaracteriza\u00e7\u00e3o do centro hist\u00f3rico \u00e9 cada vez mais intensa, com a \u201cdisneyfica\u00e7\u00e3o\u201d dos bairros hist\u00f3ricos e a destrui\u00e7\u00e3o e desmembramento de rela\u00e7\u00f5es sociais entre antigos moradores da comunidade\u201d<\/strong><\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Lu\u00eds Mendes<\/p>\n\n\n\n<p><strong>\u201cLisboa menina e mo\u00e7a menina\/Da luz que os meus olhos v\u00eam t\u00e3o pura\u201d. E vista pelos seus olhos, a capital est\u00e1 a perder autenticidade, pureza, identidade?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A quest\u00e3o da genuinidade e autenticidade dos bairros tradicionais \u00e9 pol\u00e9mica, porque parece que sempre que se invoca a identidade e mem\u00f3ria urbanas destes espa\u00e7os se est\u00e1 a defender um saudosismo e regresso ao passado e uma avers\u00e3o \u00e0 moderniza\u00e7\u00e3o e ao progresso, o que de todo n\u00e3o \u00e9 verdade. O que se defende \u00e9 que a rela\u00e7\u00e3o entre modernidade e tradi\u00e7\u00e3o que t\u00e3o bem sempre caracterizou Lisboa se mantenha equilibrada. A observa\u00e7\u00e3o emp\u00edrica revela, contudo, que a descaracteriza\u00e7\u00e3o do centro hist\u00f3rico \u00e9 cada vez mais intensa, com a \u201cdisneyfica\u00e7\u00e3o\u201d dos bairros hist\u00f3ricos e a destrui\u00e7\u00e3o e desmembramento de rela\u00e7\u00f5es sociais entre antigos moradores da comunidade, atingindo a identidade e mem\u00f3ria destes espa\u00e7os, aspectos que s\u00e3o, por sua vez, um dos fortes atractivos para a chamada dos turistas a Lisboa. A prolifera\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os e com\u00e9rcio sofisticado, \u00fanica e exclusivamente para agradar ao turista, \u201curbanaliza\u201d, porque massifica e torna igual, o que acaba por tornar indistintas as caracter\u00edsticas tipicamente associadas ao com\u00e9rcio local. Deixa de ser distinto e portanto de valor como factor de atractividade tur\u00edstica. Era importante que certos pol\u00edticos na CML e na Assembleia da Rep\u00fablica descessem \u00e0 realidade e falassem com moradores e com os pr\u00f3prios turistas para lhes sentirem o pulso\u2026<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><a href=\"https:\/\/www.jornaltornado.pt\/nos-centros-historicos-entram-os-ricos-e-saem-os-mais-pobres-e-vulneraveis\/#collapse0\">Os n\u00fameros invis\u00edveis das pessoas dejalojadas<\/a><\/h4>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignright\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.jornaltornado.pt\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/icone-ficheiro.png?w=1170&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-68266\"\/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li>Nos \u00faltimos 6 anos, os pre\u00e7os da habita\u00e7\u00e3o para arrendamento aumentaram entre 13% e 36%, e para aquisi\u00e7\u00e3o subiram at\u00e9 46%, consoante as \u00e1reas da cidade, de que resulta, estima-se, uma taxa de esfor\u00e7o com a habita\u00e7\u00e3o situada entre 40% e 60% do rendimento familiar, quando os padr\u00f5es comuns aconselham uma taxa de esfor\u00e7o at\u00e9 30%.<\/li><li>Na capital, desde 2013, a freguesia de Santa Maria Maior perdeu quase dois mil habitantes. Isto d\u00e1 mais de um habitante por dia, nos 4 anos que v\u00e3o de 2013 a 2017. O despovoamento n\u00e3o \u00e9 um fen\u00f3meno recente no centro hist\u00f3rico de Lisboa, sendo que os registos estat\u00edsticos do INE indicam que esta sangria demogr\u00e1fica se iniciou nos anos 40 do s\u00e9culo XX, onde residiam 160 mil habitantes, residem agora 40 mil. Este processo durante o s\u00e9culo passado relacionou-se sobretudo com a expans\u00e3o da suburbaniza\u00e7\u00e3o e consequente forma\u00e7\u00e3o da \u00c1rea Metropolitana de Lisboa.<\/li><li>O \u00faltimo recenseamento populacional de 2011 n\u00e3o capta a perda populacional nos \u00faltimos anos agravada pelos despejos da nova lei das rendas de 2012 nem o impacto do Alojamento Local no mercado de habita\u00e7\u00e3o local. O n\u00famero de desalojamentos recentes no centro hist\u00f3rico de Lisboa \u00e9 desconhecido, at\u00e9 pela falta de estudos de diagn\u00f3stico que comprovem o que parece ser uma evid\u00eancia clara para o investigador Lu\u00eds Mendes, mas invis\u00edvel aos olhos da opini\u00e3o p\u00fablica e sociedade civil. V\u00e1rias associa\u00e7\u00f5es falam no conhecimento de centenas de casos nos \u00faltimos anos, sobretudo nas freguesias centrais de Santa Maria Maior, Miseric\u00f3rdia e S\u00e3o Vicente, o que num universo de residentes de alguns milhares \u00e9 bastante significativo, tratando-se, ainda para mais, de popula\u00e7\u00f5es vulner\u00e1veis e em risco social.<\/li><li>Perante um cen\u00e1rio de rendas cada vez mais altas, aliado ao facto de os sal\u00e1rios serem baixos para a maioria dos portugueses, o n\u00famero de despejos disparou. De acordo com os \u00faltimos dados do Banco Nacional de Arrendamento (BNA), os despejos duplicaram desde 2013 e, em m\u00e9dia, s\u00e3o despejadas por dia cerca de 5,5 fam\u00edlias, em todo o pa\u00eds.<\/li><li>Segundo os dados do Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a, o n\u00famero de pessoas despejadas em 2016 foi 91,7% superior ao n\u00famero contabilizado tr\u00eas anos antes, o que pode sugerir evid\u00eancia das din\u00e2micas descritas. Nesta mat\u00e9ria, este fen\u00f3meno continua a ser um buraco negro em Lisboa. O ge\u00f3logo defende que as Juntas de Freguesia, com a ajuda de recursos t\u00e9cnicos, humanos e financeiros da C\u00e2mara Municipal, podiam avan\u00e7ar com um cadastro de levantamento aproximado do n\u00famero de desalojados, bem como dos edif\u00edcios devolutos, com apoio das redes de vizinhan\u00e7a.<\/li><\/ul>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Original: https:\/\/www.jornaltornado.pt\/nos-centros-historicos-entram-os-ricos-e-saem-os-mais-pobres-e-vulneraveis\/ A gentrifica\u00e7\u00e3o, \u201cuma palavra suja\u201d que agrava o desalojamento e a segrega\u00e7\u00e3o residencial, \u00e9 retratada ao Tornado pelo ge\u00f3grafo Lu\u00eds Mendes, investigador do Instituto de Geografia e Ordenamento do Territ\u00f3rio (IGOT) da Universidade de Lisboa. \u201cA habita\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 hoje vista como um direito do Estado Social mas como mero activo financeiro\u201d, diz. 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