O que vê um fotógrafo italiano no Cabrinha?


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Este é um texto especial. O  Michele Spatari, um aprendiz de arquitectura italiano, passou de rompante pela Quinta do Cabrinha. Esteve em Lisboa até ao princípio deste mês de Junho a colaborar com o Colectivo Warehouse e achou por bem vir fotografar a Quinta do Cabrinha e as suas gentes.

As palavras dele serão sempre melhores que as nossas para perceber o como e o porquê de isto ter acontecido. Ficam a entrevista e algumas das imagens que nos deixou.

Olá, Michele. Podes apresentar-te?

Ciao! O meu nome é Michele Spatari e sou um estudante de arquitectura italiano à procura do meu caminho no fotojornalismo, fotografia documental e nos media noticiosos em geral. Eu sei, é um caminho árduo.
Nasci numa cidade de média escala italiana chamada Bolonha em 1991 e tive sorte suficiente para, durante os últimos anos, ter a oportunidade de viver em sítios como Lisboa, Beirute e Bordéus. Fiz uma tese algo diferente que mudou algumas das minhas perspectivas: o tema de reflexão era o papel dos espaços públicos e colectivos em cidades “divididas” em situação de pós-conflito, utilizando os exemplos de Nicosia, Mostar, Belfast e um foco primordial em Beirute, e é essa a razão por ter acabado no Líbano.
O meu trabalho fotográfico é concentrado no estudo dos corpos e do espaço: como é que as políticas, as religiões e os rituais sociais afectam e moldam as cidades contemporâneas e as sociedades urbanas. No meio dos meus pensamentos confusos estou a planear dois projectos a longo prazo, um acerca da relação entre formas urbanas e violência, arquitectura e terror, design e segurança; e outro focado na luta por alojamento pessoal digno como um paralelo do conceito arquétipo de casa.
Para o próximo ano (com alguma margem) estou a planear parar um pouco e perseguir oportunidades de educação nos tópicos de que vos falei, por isso, desejem-me sorte!

Fala-nos do teu caminho no campo da fotografia. Como é que se relaciona com a tua formação em arquitectura e de que forma é que isso se prende com o trabalhando que tens feito até aqui?

A certo ponto na minha educação em Arquitectura comecei a perder interesse no processo de desenhar e vi-me mais e mais atraído pela pesquisa e investigação. A minha estadia em Beirute e o tema da minha tese ajudaram-me a compreender a minha vontade inconsciente de mudar definitivamente para essa vertente da prática: o meu compromisso é analisar e “desbravar” numa narrativa estabelecida e encontrar fendas e buracos, e, a partir destes, construir uma contra narrativa que ilumine estes assuntos e lutas relacionadas com as consequências das políticas e do poder. Arriscando parecer ingénuo, expor problemas e conflitos da nossa sociedade é o que mais me é próximo.
Neste desafio, a fotografia revela-se como uma ferramenta incrivelmente poderosa. Há uma necessidade de discussão premente sobre a objectividade do meio fotográfico, especialmente hoje, quando o fotojornalismo e a indústria mediática enfrentam sérias e variadas crises, mas não é a altura para o discutir. À parte isso, estou completamente ciente do lado pessoal de uma fotografia, e é por isso que estou a tentar aprender e aplicar vários meios como o vídeo e o áudio, mapeamento, pesquisa de arquivo: a fotografia não pode descrever o todo e a minha formação em arquitectura deu-me ferramentas que me permitem integrar estas outras práticas.

 

 

Quais são as tuas maiores preocupações como fotógrafo? O que procuras com as tuas fotografias?

A primeira e mais importante preocupação é não deturpar o tópico, isto é mandatório em qualquer circunstância.
Dado ser uma pessoa com tendência para pensar em demasia, estou neste momento assoberbado com preocupações, mas acho que é uma coisa saudável a longo termo. A maior parte destas preocupações estão relacionadas com a minha condição de privilégio como homem branco europeu: a partir dessa condição faço o maior esforço para evitar sexismos, racismos e orientalismos nas minhas narrativas. Recentemente tive uma curta mas esclarecedora conversa com a fotógrafa documental Clary Estes, que me ajudou a repensar a minha condição de privilégio: endereçou-me para o trabalho de Eula Biss, que trabalha esta questão “de uma forma muito saudável”, para citar Clary. Estes e Biss ajudaram-me a mudar esta perspectiva de pensamento de negativa para positiva, mudaram o meu ponto de vista: pensar no meu privilégio não como culpa mas como uma dívida para com a sociedade e trabalhar arduamente para o compensar.
Sou profundamente atraído pelo caos, violência, conflitos, protestos, dicotomias, informalidade. Estes são os tópicos que pretendo investigar através da fotografia. Não me considero ainda um fotógrafo, de certeza não um fotojornalista ou um fotógrafo documental, mas estou profundamente comprometido em tornar-me um, através do meu trabalho, tempo investido e experiência.

 

 

 

Como é que vieste desenvolver este trabalho na Quinta do Cabrinha?

De forma concisa, estava a trabalhar num colectivo de arte e arquitectura chamado Colectivo Warehouse (agradeço profundamente a cada um dos seus membros talentosos) desde Janeiro e estava à procura de uma forma de narrar algumas das contradições que sentia em relação a Lisboa. Testemunhei uma cidade numa espiral vertiginosa de transformação: o brilhante centro histórico, o “hype” Erasmus, a cena artística emergente, o paraíso fiscal das corporações, a capital europeia da moda turística. Não havia maneira de todas estas mudanças não terem um lado negro, então comecei a conversar e a questionar pessoas que passaram toda a vida nas ruas inclinadas de Lisboa: esclareceram-me acerca da hiper turistificação, um eufemismo para a gentrificação devastadora da cidade, o aumento exorbitante das rendas, os despejos subtis, o esvaziamento do centro da cidade, as periferias intermináveis. Uma narrativa muito diferente daquela que vemos nas revistas lustrosas.
Estava à procura de uma história que contemplasse algumas destas dicotomias e um dia fui, com o Ruben Teodoro, a uma reunião do Warehouse com a Academia Cidadã, na Quinta do Cabrinha. Foi amor à primeira vista: o complexo habitacional com cores modernistas e o sentimento de uma comunidade a viver no limite da sociedade rapidamente me atraiu o espírito, o coração e mente.

 

 

O trabalho que começaste na Quinta do Cabrinha relaciona-se de alguma forma com o teu trabalho fotográfico anterior?

Certamente, relaciona. Como disse na abertura desta entrevista, estou muito interessado no tópico da habitação: a “casa”, o abrigo protector, o arquétipo arquitectónico por excelência, surgiu por todo o globo, desde a transformação de uma sociedade nómada para uma sociedade sedentária. Acredito que, desde sempre, e apesar de todos os feitos e avanços teconológicos produzidos, a luta por uma casa digna é também um arquétipo, tão relevante como o primeiro, e que surgiu ao mesmo tempo que aquele. Em todos os cantos do mundo vais encontrar controvérsia e conflitos relacionados com o direito a uma habitação condigna, um tema que se relaciona com todos os assuntos em “ebulição” que discutimos actualmente: migração, alterações climáticas, desigualdades sociais. É um arquétipo sombrio que esteve presente durante toda a evolução humana e não nos vamos desfazer dele com nenhuma brevidade.
Neste seguimento, a Quinta do Cabrinha é um sítio especial e uma comunidade preciosa que tive o prazer de testemunhar, mesmo que por um período breve de tempo. Toda a narrativa enraizada desde os tempos do Casal Ventoso criaram uma aura de região selvagem em volta do bairro que é muito difícil de dispersar. A arquitectura modernista do bairro social é uma boa metáfora para a comunidade: uma presença física brutal embelezada exteriormente com cores vivas. Do que percebi e aprendi, o Cabrinha representa um grupo de pessoas que sempre viveram nas franjas da sociedade portuguesa, com todo o orgulho e dor associados a essa condição: mas ali, no limite, na fronteira, na margem é onde encontras uma paixão inesperada, regozijo e encanto. Uma mistura arrebatadora de contradições e resistências que faz da informalidade algo tão interessante para mim e que altera a noção do que é público, associada a decisões de cima para baixo por parte dos poderes, para a noção do partilhado, comum.

 

 

O que é que encontraste na Quinta do Cabrinha e como vês o futuro do bairro e comunidade?

Encontrei uma resistência diária, uma Lisboa muito diferente do que estamos habituados a ver, mas vou, certamente, precisar de mais tempo para acomodar convenientemente todas as lições que assimilei inconscientemente do Cabrinha.
Num plano pessoal, encontrei novos amigos apesar das barreiras linguísticas (o meu português está longe de ser perfeito), diferenças de idades e a suspeita normal que uma câmara suscita inicialmente. Contas feitas, senti-me bem vindo, e essa é a sensação mais prazenteira que alguém que faz, ou quer fazer, este tipo de trabalho pode experienciar: por isso e por tudo o resto estou profundamente grato.
Conte o que contar a minha opinião, vejo o futuro do Cabrinha na sua auto-organização e coesão. É um caminho muito árduo, mas apesar de todos os obstáculos a auto-determinação comunitária pode levar a uma posição mais forte quando é tempo de lidar com as administrações e de exigir que se cumpram direitos. Espero que o bairro cresça, se eleve e melhore sem perder a sua singularidade. Tenho esperança que os jovens que conheci e com quem partilhei os dias façam as suas vozes ser ouvidas em prol da comunidade, liderando-a e melhorando as suas condições de vida, sem fazer cair os laços arrojados que são a força real do Cabrinha.

 

Ao Michele, o nosso eterno obrigado pelo trabalho que aqui fez.

As portas da Academia Cidadã estarão sempre abertas.

 


Outros Campeonatos é um projeto da Academia Cidadã, que visa promover a cidadania ativa na comunidade da Quinta do Cabrinha, em Alcântara.

Financiado pelo BIP/ZIP da C.M. Lisboa e em parceria com a Junta de Freguesia de Alcântara, o grupo de jovens “Ventos de Mudança”, a Associação Nacional de Futebol de Rua e o Lisbon Sustainable Tourism.

Outros Campeonatos promove o fortalecimento social do bairro do Cabrinha, fomentando organização comunitária, capacidade de iniciativa local e maior consciência democrática. Também desenvolve uma abertura do bairro à sociedade em geral, reforçando a sua integração na cidade. As principais estratégias de ação são o futebol de rua e o turismo. Eventos de futebol de rua atraem os residentes do bairro, a intervir e participar na sua organização e implementação – com a facilitação de ferramentas e processos de participação organização cidadã. As visitas turísticas ajudam a repensar o bairro, abrindo a comunidade a novas experiências de cidadania.

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